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Este é O Benefício Alquímico

Há um incontornável apelo ao nomadismo, ainda que ocasional, que a
todos acomete. É esta a definição. Não há outra. A não ser que nos
queiramos despir de toda a poesia que, aqui e ali, vai pintando os
dias. Aí chamamos-lhe apenas “Viajar cá Dentro”, que é muito menos que
um chavão institucional. É só redutor. Comprime-nos todo o senso ao
contíguo espaço de uma caixa à qual nenhum de nós, catártico por
natureza (assumamo-lo), pertencemos. Sair da caixa não é tão Out Of
The Box assim. É inato. Espontâneo. Puro e simples. E foi assim, num
dia absolutamente normal, sem qualquer bizarria ou excentricidade, que
optámos por conhecer o Parque Natural de Serra de Aire e Candeeiros.
Podíamos ser apaixonados por História e descobrir os castelos de
Alcanede e de Porto de Mós. Ou mover-nos a geologia e caminhar cerca
de dois quilómetros a partir da aldeia de Alcaria, com passagem pela
gruta da Cova da Velha, para finalmente avassalarmo-nos com a Fórnea,
esse impressionante anfiteatro natural. As grutas de Mira de Aire e de
Algar do Pena também não passariam ao lado. Ou as pegadas de
dinossauros de Vale de Meios. Mas o que nos move é a paixão. E este é
um sentimento incontornavelmente humano. Gente. É esse o âmago do que
fazemos. E se as gentes são o fundamento, é a sua paixão pelo meio
onde se inserem que nos move no meio delas. As que o operam, fazem
Alquimia. É bom que se saiba. Para O Benefício de todos.

O Princípio

Sabemos, por centelha, que a pastorícia é quase tão antiga como a
nossa espécie. Ou, pelo menos, como o discernimento, que veio depois
do mais primordial instinto de sobrevivência. O mesmo discernimento
que não possibilitou ao progresso condenar uma actividade económica
tão milenar como crucial. Domesticámos feras que temíamos para guardar
rebanhos. Hoje, são animais de companhia. Alimentámo-nos com
frugalidade até aos dias das fartas celebrações, pagãs ou religiosas,
sem recorrer à caça. Cobrimo-nos com agasalhos. Não chegava. Como seres
criativos, concebemos. Elaborámos. Consumámos. Arte.
Das Mantas de Minde, por pouco, restava-nos a memória. Até que Ângela
Subtil, terapeuta dedicada a cuidar do próximo (co-fundadora da
Associação Portuguesa de Massagem Infantil), decidiu embrenhar-se no
coração da Serra d’Aire em busca dos padrões das mantas que recordava
decorarem a casa dos seus avós. Os mais de 200 teares da vila tinham
sido substituídos por maquinaria industrial. Restavam dois. Parco
testemunho de um tempo em que, nas ruas de Minde, o som ensurdecedor
dos teares a bater se confundia com os cânticos dos tecelões. Foram
aqueles dois exemplares, os poucos artesões que ainda lhes conheciam os
segredos, manhas, preceitos e a paixão de Ângela por uma arte de
cuja morte recusou ser testemunha, que fizeram nascer a Subtil Loom, a
assunção de um amor pelo mais primordial apego à terra e à mão que a
transforma com arte. Ou seja, a tradição.
Urdir a teia. São 1000 fios de lã que se enrolam no órgão de tear, para
depois serem atados, dois a dois, nos liços. Estes são puxados para a
frente, passando pelo pente. Agora que o tear está preparado,
enchem-se as canelas com os fios a usar, com recurso à roda dobadeira
e ao fuso, e ficam prontas a ser colocadas nas lançadeiras. Depois, é
a arte do tecelão. Fazendo uso do desenho que guarda apenas na sua
cabeça (o que torna cada uma das peças verdadeira e incontornavelmente
únicas), os pés vão percorrendo as ponteiras. Estas abrem os fios da
teia sobre o tear. Ambas as mãos passam as lançadeiras. Mas só a
esquerda faz o pente apertar o fio. Parece difícil? É. Trata-se de um
verdadeiro bailado onde entram o saber milenar, os fios com história e
as suas histórias.

O Meio

Pó de Arroz. Poderia fazer todo o sentido para este produto se tivesse
de fazer sentido para este produto. E faz. É o nome de uma localidade.
Na Serra de Sintra. É em Pó de Arroz que fica a Oficina Pode Ser, onde
Carlos Batalha, marceneiro invulgarmente destro, leva a cabo aquilo
que um dia foi uma arte tão comum como prezada. Hoje é só reconhecida
porque rara. Respeitada porque singular. Felizmente, quando o número
míngua, transborda a flama no que subsiste. A paixão pela própria
matéria-prima radica no zelo da sua transformação. Alquimia também é
isto.
No processo criativo, aliado aos nossos intentos, começámos pela
criteriosa selecção de Cameleira Japónica, madeira nobre, compacta e
lustrosa. Carlos Batalha exerce, de seguida, o seu saber… No torno
de madeira é definido o diâmetro desejado. O corte transversal é feito
numa serra de fita, com a espessura desejada. Segue-se o furador de
coluna onde são feitas as furações. O toque final é dado com recurso à
lixa e ao polimento com cera de abelha. Nasce assim o botão.

O Fim

Algures, no tempo, deu-se o desequilíbrio. Ocorreu quando passámos a
recorrer às matérias mais primordiais com recurso a processos que
ferem, de morte, os próprios princípios básicos que, durante milénios,
foram respeitados. É um exercício inútil tentar identificar esse
momento no tempo. Por outro lado, é urgente que esse equilíbrio seja
restabelecido. Com humildade, que deveria pautar cada uma das nossas
acções, a ascensão, a que comummente chamamos progresso, agracia muito
mais. Muitos mais. Com afecto por tudo aquilo que nos é tão basilar,
que moldou quem somos como um todo, surge a paixão. E só esta pode
estar na base do que depois virá: uma alquimia de saberes, talentos e
erudições que o tempo não apagou.
O Benefício rescreve-as.
Uma sleeve para laptop, com 3 tamanhos e 2 cores (6 combinações),
saída dos teares da Subtil Bloom. Uma pequena parcela em pele de ovelha
curtida com extracto de mimosa. Da feitura desta, excede uma parcela
de tecido que é reutilizado para fazer uma bulsa multi-usos, com
padrão único e especial O Benefício. Ambas contarão com botões da
lavra da Oficina Pode Ser, em Cameleira Japónica polida com cera de
abelha. A personalização com o Seu Benefício é feita, a laser, pela
FAB LAB do ISCTE.